quarta-feira, 28 de novembro de 2007

MāORI [1]

A nossa primeira viagem levou-nos até à Oceânia, mais concretamente até à Nova Zelândia, para um contacto enriquecedor com o povo Māori, os nativos guerreiros. A origem do nome «Māori» que designa não só o povo mas a língua que lhes é própria significa "normal", "comum", sendo um termo que se contextualiza em oposição aos deuses e espíritos ancestrais, ou seja, é Māori o indivíduo que não pertence ao plano do sagrado. A palavra «Māori» parece ter viajado até ao Havai sob o termo «Maoli» e até ao Haiti, sob o termo «Maohi», locais onde tem o mesmo significado que na Nova Zelândia. Curiosamente, o termo «Māori» era apenas usado pelos mesmos como forma de identificação pessoal. Os viajantes que por ali passavam apelidavam o povo de "nativos", "aborígenes" ou "neozelandeses".

Segundo alguns historiados e antropólogos, a Nova Zelândia terá sido formada por nativos originários do leste da Polinésia, entre 800 e 1300 a.C., em vagas sucessivas e continuadas. Segundo a narrativa Māori, os antepassados chegaram de Hawaiki -- um lugar lendário na floresta tropical da Polinésia -- em «wakas», grandes canoas, que cruzaram os oceanos. A antropologia física e linguística indica que, de facto, os Māori são descendentes de povos oriundos do leste da Polinésia, o que vem comprovar a narrativa tradicional.



::Chefe Māori durante a cerimónia do Haka::

TATUAGEM «MOKO». A tatuagem é um dos elementos mais representativos dos Māori, em especial a tatuagem facial designada de «Moko». Os Māori desenvolveram um estílo de tatuagem bastante diferente dos demais povos do Pacífico Sul. A técnica de tatuagem (palavra que significa "marca no corpo") dos Māori é uma transposição do talhar da madeira para um talhar no corpo, isto é, os Māori aplicam a mesma técnica na talha de madeira e na tatuagem. A moko é um símbolo de prestígio social, pelo que quanto mais densa for a pintura mais importância social tem o indivíduo, e digo indivíduo uma vez que a moko é uma pintura eminentemente masculina. No século XIX as cabeças dos Māori tornaram-se alvo de cobiça e interesse por parte dos coleccionadores europeus, uma vez que a decapitação era um hábito de guerra, bem como a colocação da mesma em urnas sagradas por parte dos vencedores. Em alguns museus do mundo é possível encontrar tatuagens Māori, não só em desenhos ou fotografias como, inclusivamente, em pele humana. A preservação da tatuagem, como que uma preservação da memória individual e colectiva, era feita através da manutenção das cabeças dos líderes e familiares, colocadas em urnas próprias e veneradas simbolicamente.

O comércio das cabeças tatuadas foi desenvolvido pela interacção com o navegador europeu, que maravilhado com o pormenor artístico do trabalho, começaram a trocar cabeças por armas de fogo, munições e artifícios em metal. A procura começou a ser superior à oferta, em resultado disso a população Māori começou a ser consideravelmente reduzida, dizimada.

Segundo consta a primeira cabeça a ser levada para a Europa foi pelo naturalista Joseph Banks, mais tarde Sir Joseph Banks, que chegou à Nova Zelândia a 20 de Janeiro de 1770, juntamente com a tripulação do Capitão Cook. Era a cabeça de um jovem de catorze ou quinze anos que pereceu em combate. A procura desenfreada por cabeças tatuados dos Māori, ficou registada nas palavras do Reverendo J.S.Wood:

Em primeiro lugar nenhum homem estava, por um momento que fosse, seguro, a menos que se tratasse de um chefe. E mesmo assim, bastava uma distração dos seus guardas para que fosse atacado, morto e decapitado, em nome do comércio de cabeças tatuadas. (...) Mas o comércio começou a florescer em quantidade e extensão, e surgiram emissários enviados a fim de seleccionador os melhores "exemplares". As cabeças cozinhadas" ganharam uma importância tal que conquistaram um mercado próprio, de tal forma que se tornou usal encontrá-las para venda nas ruas de Sidney.

Centenas de Māori sofreram trágicos fins, mortos apenas em nome do valor comercial das suas cabeças. De tal forma que se perdeu a preservação e culto das cabeças de familiares, líderes e amigos, sob o medo de estas serem capturadas para comércio.


Lentamente o tráfico de cabeças foi-se tornando um escândalo e considerado uma carnificina. Os próprios Māori deixaram de negociar sob pena de perder a sua identidade e existência. O esforço de combate ao comércio de cabeças pelos Māori conquistou a atenção e conseguiu a promulgação de uma Lei ainda antes da separação colonial da Nova Zelândia. O Governador Darling de New South Wales impôs uma multa de 40 libras e a divulgação dos traficantes de cabeças. O comércio foi morrendo lentamente.


[Ojigwe Orunbiyí Akwegbuará]